“Tarde fresca, não acham? Estava certo que viriam. Que tal começarmos dia de hoje com uma boa dose de sangue de Cocatrice? O anel? Claro que foi trocado. Não há venda que se perca depois de uma boa história. Preferem arroz ou raízes acompanhando o pernil de javali? Hoje tenho uma história intrigante para vocês. Os atos do Velho e o item da história foram coisas inesquecíveis a este sábio menestrel que vos fala. Contarei da vez que fomos à cidade com uma arena de gladiadores…”

“Era uma manhã de verão típica do sul, quente, ensolarada e com poucas nuvens no céu. Eu estava a escrever quando o velho me chamou e disse: ‘Vê aquele homem? Aposto dez moedas que está aflito por estar sem uma arma e querer participar do gládio de hoje’. O homem de fato parecia preocupado com algo, mas, em minha mente, sã e comum, não enxergava os motivos.

Ele era alto e corpulento, músculos definidos e feição rija como uma rocha. Sua pele era escura como o ébano trabalhado pelas mãos dos melhores artesãos élficos. Vestia-se como um viajante e portava uma espada de três palmos à cintura. Enquanto procurava por algo viu-nos ali parados e resolveu se achegar. O Velho abordou-o com seu tão afamado chavão e começou toda sua lábia sépia para cima do homem.

‘Rapaz, vejo aflição em seus olhos e coragem em seu peito. Se assemelha a meu falecido irmão, que os deuses o tenham, o qual lutava e proferia as mais nobres bravatas em combate. No entanto essa faca que porta à cintura não é coisa para tão forte combatente, deixe-me mostrar-lhe algo’.

O velho pegou um cabo do que outrora fora um mangual, agora era só empunhadura e um pedaço da corrente que se prendera ao flagelo, e apresentou ao guerreiro. O rapaz ficou uma tanto curioso quanto ao item ali presente e perguntou o que era.

‘Isso meu bom homem, é o que um dia generais poderosos chamaram de ‘Quebra-crânio’. Pertenceu a um comandante orc que venceu inúmeros combates antes de morrer e deixar seu povo no estado que está agora. Ele era um guerreiro tribal fortíssimo e se empenhava com toda sua alma e sangue para proteger e conquistar em nome de seu povo. Não pense que era como os orcs que você está acostumado a combater, sem treinamento ou batedores perdidos sem rumo. Eram orcs disciplinados e organizados’.

‘Infelizmente por ambição, e um pouco de magia das mais pérfidas, seus companheiros de tribo, que se corromperam, o traíram e despojaram-no de seu maior bem e protetor nos combates. Deixaram-no à mercê de seus punhos. Morreu pela mão de seus próprios irmãos. Depois de eleito novo líder, fizeram o favor de destruir a arma e lançar seus pedaços em um pântano, junto com seu corpo’.

‘O espírito do comandante ainda está preso nesse pedaço restante de mangual e, com a palavra certa de comando, pode-se ativar uma forma espectral das partes faltantes da arma, que ignora completamente qualquer objeto material que tocar’.

O homem ficou admirado com a maravilha que a arma podia executar. Queria de todo jeito adquirir o precioso item. Acabou trocando algumas jóias que levava consigo e a espada que portava. ‘Apenas um conselho te dou jovem rapaz, atenta-te para tua ambição, ela pode levar-te por caminhos obscuros e sem volta. Faça bom proveito’. Eu, sinceramente, não entendi o porquê daquela troca feita pelo Velho.

Me abstive de qualquer comentário e observei o homem saindo feliz e contente, pronto para se inscrever no torneio e vencer todas as contendas. Pois vejam, o sol já se foi há tempos. Melhor nos recolhermos, pois amanhã alguns aqui têm de lavrar logo cedo. Semana que vem estarei aqui novamente com mais contos fantásticos do Velho da Carroça. Até mais ver companheiros de caneca.”

Gaillius Cantalendas

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